Dilemas morais da pandemia para profissionais de saúde

 

Roberto Lent

Poucos se dão conta dos terríveis dilemas morais com que se deparam os profissionais de saúde no enfrentamento da Covid-19. Dilemas morais são bem conhecidos dos neuropsicólogos, bioeticistas e filósofos, e têm sido estudados em suas determinações cerebrais, individuais e sociais.

O filme A escolha de Sofia se tornou o exemplo mais famoso no campo das artes: conta o drama de uma mãe de dois filhos, forçada pelos nazistas a escolher um deles para morrer. No campo da ciência, é bem estudado o Dilema do Trem. Imagine um trem sem freios, em uma via com cinco trabalhadores fazendo a manutenção dos trilhos à frente. Você está na central de controle, com a possibilidade de acionar a alavanca que desvia os trilhos, para que o trem saia da direção dos trabalhadores. Só que na rota de desvio há também uma pessoa. O dilema é impiedoso, entre a morte de cinco e a morte de um.

Segundo as pesquisas na área, a maioria opta pelo desvio. Mas, será justo? Será ético?

Os profissionais de saúde estão enfrentando dilemas morais assim, que têm motivado a manifestação de comissões de ética na Europa e nos Estados Unidos em publicações internacionais. Os princípios vigentes em situações normais tornam-se controversos e dolorosos na pandemia, por conta da saturação dos hospitais. Cada leito disponível gera um dilema moral excruciante.

Alguns princípios ressaltam nessas circunstâncias. Um deles é muito importante: todos os pacientes têm igual direito à vida e à saúde. Mas, se há apenas um respirador disponível e dois pacientes aguardando tratamento, é inescapável priorizar. Qual dos dois? A Associação Europeia de Neurocirurgia e o Colégio Americano de Cardiologia recomendam priorizar os mais graves. Mas, considerando a mesma gravidade, se um tiver 30 anos e o outro 70 anos, qual deve ser atendido na frente? Para a mesma gravidade e faixa etária, se um deles for médico e o outro comerciante, qual você atenderia? E para dois médicos em iguais condições de gravidade e idade, você priorizaria um intensivista ou um ortopedista?

Decisões como essas causam grande sofrimento aos profissionais de saúde à beira do leito. O conflito é cruel.

Por isso, as duas entidades preconizam que os países e os governos tenham comitês de crise que vão além das políticas gerais de isolamento e gestão de recursos de atendimento, e determinem também os princípios éticos e protocolos a serem seguidos pelos profissionais de saúde. Não cabe a eles, na ponta, realizar essas escolhas de Sofia.

Por isso é tão necessária a união de esforços e a orientação pactuada dos governantes, em vez da desarticulação atual entre a instância federal, de um lado, estados e municípios, do outro. Não há como garantir orientação segura e presente aos profissionais de saúde nos hospitais, num quadro em que o país está à deriva com a troca política de ministros da Saúde e suas equipes.

Os dilemas morais vão corroer ainda mais a capacidade dos profissionais de saúde para atender a população, se não forem mediados pelas autoridades.

Publicado em O Globo, 21/05/20

Roberto Lent é neurocientista, professor emérito da UFRJ e pesquisador do  Instituto D’Or

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