Metáforas ou a síndrome de “O carteiro e o poeta”

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Dando seguimento à nossa série sobre como a mídia enquadra a genética e a Medicina, publicamos o terceiro desta série de posts

“Metáforas, metáforas, metáforas”. Quem não se lembra desta frase do protagonista de ‘O Carteiro e o Poeta’ (Massimo Troisi) e sua paixão pelas ditas cujas?

Pois o jornalismo científico e a divulgação científica são pródigos no emprego de metáforas, que, por sinal, são o motor da Poesia, segundo Gilbert Durand.  A intenção em seu emprego é das melhores: ‘traduzir’ o conhecimento científico complexo para o público leigo.  E, neste aspecto, costuma funcionar.

Mas esta prática possui um efeito colateral que contribui para a visão distorcida que a mídia e o senso comum nutrem pela Ciência.

“Quebra-cabeças“, “código“, “enigma“, “mapa” ou “decifração“, “decodificação“, dentre outras, são metáforas correntemente empregadas quer no jornalismo científico, quer na divulgação científica.

Algo inevitável quando se as emprega é que seu uso em descrições reforça a equivocada visão de que a pesquisa científica é a busca objetiva de uma realidade circundante, um desvendamento cumulativo de fatos cujo resultado final será inexoravelmente bem-sucedido.

Nestas horas, bom mesmo é se lembrar do dito: “O mapa não é o território”. Ou que a descrição dos fenômenos, por mais obsessiva que seja, jamais captará toda a riqueza do observado, seja em suas dimensões éticas, políticas, sociais, econômicas ou quaisquer outras.

Tal quadro típico da representação midiática da ciência é mais um tijolinho empregado na construção do mito do cientista onisciente e onipotente.

A belíssima cena das metáforas, do filme O Carteiro e o Poeta, está aqui . De um lirismo comovente, foi a última semente de beleza deixada neste mundo por Massimo Troisi. As metáforas também aparecem aqui.

Doze horas depois das filmagens ele morreria de um ataque cardíaco (houve quem dissesse que ele morreu por conta das complicações da Aids). Hoje, Troisi é imortal.

 

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