Paciente de 16 anos faleceu por insuficiência hepática aguda após receber dose máxima do Elevidys, medicamento que custa mais de R$ 15 milhões por aplicação
Um jovem de 16 anos com Distrofia Muscular de Duchenne (DMD) morreu após desenvolver insuficiência hepática aguda decorrente do tratamento com Elevidys, a controversa terapia gênica da Sarepta Therapeutics que custa US$ 3,2 milhões por dose nos Estados Unidos. O anúncio, feito anteontem pela empresa (18/3), representa o primeiro caso fatal entre mais de 800 pacientes que já receberam o medicamento e provocou uma queda imediata de aproximadamente 26% nas ações da farmacêutica.
Segundo informações divulgadas pela Sarepta, uma infecção concomitante por citomegalovírus (CMV) pode ter sido um fator agravante para o desfecho trágico. A empresa já havia documentado o risco de lesões hepáticas graves como possível efeito colateral do tratamento, mas este é o primeiro relato de um caso que evoluiu para óbito.
“Expressamos nosso profundo pesar pela perda de um jovem com distrofia muscular de Duchenne,” afirmou a empresa em comunicado oficial, acrescentando que está trabalhando para atualizar as informações de prescrição do medicamento.
Medicamento de aprovação polêmica
O caso fatal ocorre menos de dois anos após a aprovação acelerada do Elevidys pelo FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos, em junho de 2023, em um processo que gerou profundas divisões internas na agência reguladora americana.
Documentos públicos revelam que três equipes de revisão da FDA e dois altos funcionários haviam recomendado rejeitar a solicitação da Sarepta devido a dados clínicos insuficientes. A diretora de avaliação clínica do escritório de terapia gênica da FDA, Lola Fashoyin-Aje, chegou a descrever os benefícios alegados do medicamento como “exploratórios” e “possivelmente devidos ao acaso”.
No entanto, Peter Marks, diretor do Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica (CBER) do FDA, superou estas objeções afirmando em um memorando: “Chego a uma conclusão diferente sobre a interpretação geral dos dados”.
Em junho de 2024, a indicação do medicamento foi significativamente expandida para incluir pacientes que caminhavam ou não (ambulatoriais e não-ambulatoriais) com 4 anos ou mais, ampliando drasticamente a população elegível para aproximadamente 80% das pessoas com Duchenne nos EUA.
Impacto no Brasil e dilemas financeiros
No Brasil, o Elevidys foi aprovado pela Anvisa em dezembro de 2024 e enviado para análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) em janeiro de 2025. O custo estimado do tratamento no país é de R$ 15 a 20 milhões por paciente.
O alto valor do medicamento, combinado com evidências limitadas de eficácia e agora um caso fatal, intensifica o debate sobre a viabilidade de sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) mediou acordo entre União e a farmacêutica Roche (distribuidora do medicamento no Brasil) que resultou em economia aproximada de R$ 250 milhões para os cofres públicos.
Desde a homologação do acordo, três pacientes já receberam o Elevidys no Brasil: dois no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e um no Hospital Fernandes Filgueiras, no Rio de Janeiro.
O ministro Gilmar Mendes, do STF, já havia proferido quatro decisões envolvendo a concessão do Elevidys, rejeitando pedidos por considerar o risco à saúde de crianças fora da faixa etária prevista para aplicação do medicamento.
Repercussões no mercado e na medicina
A notícia do óbito teve impacto financeiro imediato. O valor de mercado da Sarepta Therapeutics, estimado em US$ 7,57 bilhões, sofreu uma dramática redução com a desvalorização de suas ações em cerca de um quarto do valor anterior.
Apesar da queda significativa, o banco de investimento TD Cowen manteve sua classificação de “Compra” para as ações da empresa e seu preço-alvo de US$ 203,00, sugerindo confiança na recuperação a longo prazo.
Especialistas em doenças neuromusculares raras, consultados após o anúncio, sugeriram que a reativação do citomegalovírus provavelmente funcionou como um fator confundidor na lesão hepática do paciente. Um líder de opinião médica, que falou em evento organizado pela Associação de Distrofia Muscular (MDA), indicou que não espera impacto significativo na prescrição do Elevidys para pacientes mais jovens em seu centro médico.
“Esse produto, quando for registrado, vai ser sob condições de monitoramento por 15 anos. A terapia gênica envolve um vírus adeno-associado, a gente tem que acompanhar, porque podem ter eventos adversos tardios – por exemplo, a formação de tumores”, havia advertido João Batista da Silva Júnior, representante da Anvisa, antes deste incidente fatal.
Medicamento e seus riscos
Como toda terapia gênica, o Elevidys apresenta um perfil de segurança complexo. Nos três primeiros dias após a aplicação, os efeitos colaterais mais comuns incluem vômito, náuseas, dor no corpo e taquicardia. A partir da quarta semana, podem surgir reações adversas mais graves, incluindo fraqueza muscular, miocardite ou miosite autoimune.
Sequelas graves já documentadas incluem lesões no fígado e inflamações no miocárdio, mas até hoje nenhum caso havia resultado em morte.
O medicamento consiste em uma única injeção com potencial de beneficiar o paciente por longos períodos. O tratamento é administrado como dose única, pois cada paciente pode receber a medicação apenas uma vez na vida devido à forte resposta imunológica que ocorre após a primeira aplicação.
[O Elevidys] “foi uma boa forma de, através de uma autorização especial da FDA, com uma recomendação acelerada de aplicação, tentar salvar o investimento, com a cobrança em tratamento comercial de cerca de 3,2 milhões de dólares”. Joaquim Brites, líder da Associação Portuguesa de Neuromusculares
Críticas e defesas
Nem todos os pacientes e familiares estão convencidos do valor do Elevidys.
Catherine Collins, mãe de um paciente com DMD, foi registrada confrontando um executivo da Sarepta: “Vocês não entregaram nenhuma das evidências que deveriam ter para o seu medicamento de $3,2 milhões. Somos nós que lhes damos os milhões de dólares, mas vocês não nos devolvem nada, que são fatos, dados e ciência”.
“Lamentavelmente, ninguém ainda compreendeu que um medicamento em fase de ensaio clínico, sem qualquer relatório de desfecho publicado sem restrições e sem perspectiva de aprovação na Europa para breve, jamais poderia ter sido autorizado para comercialização” afirma Joaquim Brites, líder da Associação Portuguesa de Neuromusculares (APN). E acrescenta: “Poucas pessoas perceberam que a única coisa que a Sarepta pretendia era minimizar os custos de um investimento megalomaníaco feito na teoria do exon skipping que, até hoje, ainda não deu provas de eficácia. Eu ouço falar nessa terapia celular há quase trinta anos, sem qualquer demonstração de que possa funcionar”.
Uma importante liderança no campo das distrofias musculares no Brasil assim se pronunciou ao saber da morte do primeiro paciente em terapia gênica com Elevidys: “Somos ratos”, referindo-se ao fato de os pacientes com DMD supostamente estarem sendo tratados como cobaias humanas neste caso.
Para Brites, o Elevidys “foi uma boa forma de, através de uma autorização especial da FDA, com uma recomendação acelerada de aplicação, tentar salvar o investimento, com a cobrança em tratamento comercial de cerca de 3,2 milhões de dólares”.
Para uma médica geneticista que prefere não se identificar, “a aprovação [de Elevidys] pela FDA foi equivocada” e a comunidade científica não entende como ela teria se dado. E prossegue: “Ela certamente foi dirigida por outros interesses, que não o da comunidade de pacientes com Distrofia Muscular de Duchenne. Mas, a FDA tem força: uma aprovação pela FDA abre portas para aprovação por agências semelhantes internacionais”.
Segundo a médica, “os estudos, de uma forma muito clara, mostraram que seria necessária ainda mais pesquisa para a disseminação desta terapia e sua incorporação em sistemas de saúde”. Em sua avaliação, “infelizmente, o STF cedeu à pressão de um julgamento equivocado de juízes de instancias inferiores, e não sustentou a opinião cientifica”. E acrescenta: “Tentou ‘atender’ as expectativas da comunidade de Duchenne, mas de uma forma equivocada: expondo os mesmos a mais riscos, e a benefícios desconhecidos”. Em sua avaliação, a FDA errou ao aprovar Elevidys. “Que isto sirva de licao para a ANVISA e para o nosso sistema
judiciário”, concluiu.
Por outro lado, Denizar Vianna, professor titular da Faculdade de Medicina da UERJ e ex-secretário da atual Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (SECTICS) do Ministério da Saúde, havia ponderado: “A escassez de dados científicos mais sólidos é comum em doenças raras, já que os tratamentos disponíveis são recentes e a amostra populacional para ensaios clínicos é relativamente restrita, e não deve necessariamente ser um impeditivo para disponibilizar a alternativa às famílias”.
“Vocês não entregaram nenhuma das evidências que deveriam ter para o seu medicamento de $3,2 milhões. Somos nós que lhes damos os milhões de dólares, mas vocês não nos devolvem nada, que são fatos, dados e ciência” Catherine Collins, mãe de um paciente com DMD
Medidas e perspectivas
Em resposta ao incidente fatal, a Sarepta Therapeutics já tomou diversas ações: emitiu uma carta aos médicos no dia anterior ao anúncio público, comprometeu-se a atualizar as informações de prescrição, reportou o incidente às autoridades de saúde e comunicou o evento aos investigadores de estudos clínicos.
Especialistas preveem que o caso pode levar a uma revisão dos protocolos de monitoramento hepático para pacientes tratados com Elevidys e possivelmente a um maior escrutínio regulatório sobre terapias gênicas baseadas em AAV.
Este incidente reacende o debate sobre o dilema central na regulação de medicamentos para doenças raras e fatais: como equilibrar o acesso rápido a terapias potencialmente transformadoras com a necessidade de garantir evidência científica, segurança e uso responsável de recursos públicos limitados.
Enquanto autoridades sanitárias e especialistas analisam os desdobramentos deste caso, famílias de pacientes com DMD continuam na angustiante espera por tratamentos efetivos para uma doença que, sem intervenção, frequentemente leva à perda da capacidade de andar na adolescência e a complicações cardíacas e respiratórias que encurtam significativamente a expectativa de vida.
Como equilibrar o acesso rápido a terapias potencialmente transformadoras com a necessidade de garantir evidência científica, segurança e uso responsável de recursos públicos limitados?
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Minha opinião, é se 800 crianças e adolescentes foram medicadas no mundo e uma só morreu e sem ter certeza que foi a terapia gênica, não se pode pensar como vcs acham Até o momento foram mais benefícios do que riscos.
Prezada Elza
O seu feedback sobre o Elevidys, assim como a quantidade de eventos adversos graves registrados até agora, é muito apreciado. O seu ponto sobre a análise de risco-benefício levanta uma questão relevante que merece uma investigação mais detalhada.
Em virtude da relevância do assunto que você levantou para discussão e em conformidade com os princípios da investigação científica e da vigilância sanitária, gostaríamos de comunicar que um novo artigo será publicado em breve em nosso blog abordando especificamente essa questão que você nos coloca. Ele será embasado em evidências científicas e nas melhores práticas de vigilância sanitária.
Pensamos que sua pergunta reflete uma incerteza frequente entre pacientes, familiares e até mesmo profissionais de saúde; é digna de uma abordagem minuciosa que leve em conta tanto os dados estatísticos quanto os princípios regulatórios relacionados à avaliação de tratamentos inovadores como o Elevidys.
Em breve teremos um novo artigo disponível e acreditamos que ele possa ampliar o conhecimento sobre como as entidades reguladoras analisam a relação entre os benefícios e os riscos, principalmente no cenário de doenças raras e tratamentos de alto custo.
Obrigado mais uma vez por participar e contribuir para esta importante discussão.
Cláudio Cordovil