Como a mídia “enquadra” temas referentes à genética e medicina? (II)

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Frame 1: O (A) geneticista com qualidades divinas

Na mídia, os (as) geneticistas são inúmeras vezes retratados como empenhados em uma busca para desvendar os segredos da Natureza.

Os vocábulos “segredos” e “mistérios” são sempre empregados para descrever sua atividade. Assim fica sugerido que esta tem uma qualidade esotérica ou incomunicável. Desta forma fica fortalecida a autoridade da ciência como única racionalidade digna de consideração na atualidade. Mas há outras racionalidades que têm valor, como o saber leigo dos pacientes crônicos sobre sua doença, por exemplo.

Nestas matérias é também comum a menção ao Santo Graal , que é uma metáfora recorrente desde o tempo em que se afirmava que o Projeto Genoma Humano iria nos revelar a receita da vida. Desnecessário dizer que o segredo da vida ainda está por ser desvendado.

Poderia dar aqui inúmeros exemplos de textos que operam com estes quadros ao tratar da genética, mas seria enfadonho. Basta você puxar por sua memória.

A capa acima me fascina pelo que representa de um certo retorno do reprimido da (bio)medicina contemporânea. Algo assim como o que ela verdadeiramente gostaria de ser quando crescesse [demais]. Já foi explorada em minha tese de doutorado.

A imagem, como é de conhecimento de todos, é uma alusão à Criação de Adão, detalhe do afresco de Michelangelo que adorna o teto da Capela Sistina, no Vaticano. Originalmente, retrata o momento em que Deus confere a Adão, o Primeiro Homem, a centelha da vida.

Agora, por esta fascinante reconstituição do Imaginário de nosso tempo propiciada pelo artista gráfico da Veja, um novo Começo se afigura onde Deus ostenta uma luva cirúrgica (simbolizando a pesquisa clínica, ou o pesquisador, se preferir) que dará origem a um Segundo Homem, despido das imperfeições do primeiro.

A chamada de capa reforça a idéia, ao falar de uma “medicina que faz milagres”.

A verdade é que a Biomedicina, cultuada na mídia pelo star system da ciência brasileira, apesar de parecer ultramoderna, possui um imaginário antigo, sonhos de um tempo passado, que acompanham a pesquisa genética desde meados do século 19.

A noção de que os males infligidos à Humanidade pela hereditariedade (ou se preferir, pelas doenças genéticas incuráveis) representam uma espécie de Queda do Homem data desta época.

A metafísica do gene reproduzida por nossos atuais veículos de comunicação é uma  senhora de quase 200 anos!!!!

O imaginário é um grande caudal que perpassa séculos do qual nem nossa vetusta e solene Ciência, com seu afã de racionalidade,  consegue escapar.

Eu poderia escrever um post de mil palavras aqui, mas esta imagem fala mais alto.

Contemple-a com atenção.

Não lhe parece maravilhosa e ao mesmo tempo assustadora?

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