Setembro de 2025. A Interfarma (associação de 42 farmacêuticas de pesquisa) publica, com a consultoria IQVIA, o relatório Tempos de Acesso: a jornada que separa a inovação do paciente brasileiro. A conclusão virou citação obrigatória em qualquer debate sobre o SUS: um remédio aprovado pela Anvisa leva, em média, 44,8 meses para chegar ao paciente do sistema público. Quase quatro anos.
É um número que cola na memória. Também é, olhando a letra pequena do próprio relatório, mais frágil do que parece.
Quatro etapas, quatro grupos de remédios diferentes
O cálculo soma quatro médias: registro na Anvisa até preço na CMED (5 meses), análise da Conitec (8,3 meses), publicação do PCDT (16,5 meses) e compra efetiva pelo sistema público (15 meses, no cenário mais favorável). Somado, dá 44,8.
Só que cada etapa vem de um grupo diferente de remédios, em janelas de tempo diferentes. A primeira usa medicamentos registrados em 2024. A segunda, decisões da Conitec entre 2012 e 2025. A terceira, PCDTs publicados entre 2018 e 2024. A quarta, 73 moléculas com dados de venda até fevereiro de 2025. Nenhum remédio foi acompanhado do início ao fim. O relatório empilha médias de fotografias tiradas em momentos distintos e batiza o resultado de “jornada do paciente”. Serve como estimativa de ordem de grandeza. A casa decimal sugere uma precisão que a metodologia não entrega.
A conta que ficou de fora
Na última etapa, o relatório separa os remédios em quatro grupos, não dois: 34 tiveram aumento de consumo depois do PCDT, esperando em média 15 meses; 15 não mostraram nenhum aumento, mesmo já incluídos no protocolo, esperando em média 26 meses. Os 24 casos restantes não são um bloco único de “dado insuficiente”, como o próprio corpo do texto do relatório sugere em certo momento. A metodologia declarada na seção 5.1 os separa em dois grupos com significados bem diferentes: 11 casos em que “o impacto é anterior ao PCDT” (o consumo já era relevante antes da publicação do protocolo, então não dá para atribuir o acesso à norma nem medir o tempo que ela levou para gerar efeito) e 13 casos de “dados recentes/inconclusivos” (o protocolo é recente demais para ter dado tempo de se observar qualquer efeito). São problemas diferentes: um é sobre causalidade, o outro é sobre falta de tempo de observação.
O número que entrou no cálculo final foi o de 15 meses; o cenário mais favorável. Os 15 remédios sem impacto nenhum, com quase o dobro do tempo de espera, não aparecem na conta do 44,8. E os 11 casos em que o consumo já subia antes do PCDT existir são um lembrete de que, para uma fatia relevante das moléculas analisadas, nem é possível afirmar que o protocolo tenha sido a causa do acesso. Se qualquer um desses grupos entrasse na conta com peso maior, a manchete seria outra.
Impacto, ou coincidência de calendário?
Um remédio entra na categoria “com impacto” quando o consumo sobe depois da publicação do PCDT. A base de dados usada, a IQVIA Non-Retail, não separa a indicação de uso nem exclui compras vindas de ação judicial. O próprio relatório admite isso em nota. Parte desse “impacto”, então, pode ser decisão de juiz, nova indicação aprovada ou simples mudança de preço. O termo mais honesto seria “coincidência temporal”.
Estatística de um caso só
A Tabela 2 cruza área terapêutica com tempo de acesso. Na linha de oncologia, grupo “com impacto”, há um único remédio, e a média reportada é 0 meses. Uma média de um caso não é média, é um ponto isolado. Mas ali está, com o mesmo peso visual de categorias com sete ou trinta e quatro casos. Desvio-padrão, intervalo de confiança, mediana: nenhuma dessas medidas aparece em nenhuma linha do relatório.

Quem escreveu, e quem paga
Quem fez o relatório é uma associação cujos membros lucram com um processo de incorporação mais rápido, ao lado de uma consultoria que vive de contrato com essa mesma indústria. Isso não invalida os dados brutos. Mas falta uma seção de conflito de interesse e de financiamento, item que qualquer publicação técnica sobre acesso a medicamentos deveria trazer, seja de origem industrial ou não.
O que resiste
Um ponto passa o teste: a demora para atualizar PCDTs depois de decisão favorável da Conitec é real e grave: 67 casos represados, média de 22 meses sem protocolo publicado. Esse número, isolado, é mais confiável do que o 44,8 somado.
A indústria não erra em apontar a lentidão do sistema. Erra ao vestir essa lentidão com um número supostamente mais preciso do que a metodologia sustenta. Para quem defende pacientes, o relatório continua útil. Só exige o mesmo ceticismo que se aplicaria a qualquer outra fonte com interesse direto no resultado.
Análise crítica de metodologia baseada no conteúdo público do relatório “Tempos de Acesso” (Interfarma/IQVIA, setembro de 2025). Não envolve verificação independente dos dados primários de Anvisa, CMED ou Conitec citados no relatório original.