O jornal The New York Times trouxe em sua edição de ontem (09/04) um instigante artigo de opinião de autoria de Jeff Coller, fundador de um consórcio de pesquisadores focado em tecnologia de edição genética personalizada para doenças raras. Coller relata o caso de KJ Muldoon, nascido em 2024 e portador de uma deficiência gravíssima de carbamoil‑fosfato sintetase 1 (CPS1), doença ultrarrara que acomete um em cada 1,3 milhões de nascidos vivos. Ela é caracterizada pela falta de uma enzima do fígado que abre a “porta de entrada” do ciclo da ureia, responsável por tirar a amônia da circulação sanguínea. Por conta disso nesses pacientes observa-se um rápido acúmulo dessa substância no sangue, especialmente em recém‑nascidos, levando a sonolência extrema, vômitos, convulsões, coma e, muitas vezes, morte nos primeiros dias de vida.
Naturalmente, um transplante de fígado poderia resolver o problema. Mas KJ Muldoon era um bebê e, desta forma, poderia não resistir ao tratamento cirúrgico. O que aconteceu a seguir pode se tornar a história médica mais importante da década. Em apenas seis meses, uma equipe do Hospital Infantil da Filadélfia e da Penn Medicine desenvolveu uma terapia personalizada capaz de corrigir a única letra incorreta no DNA de KJ. Para isso foi empregada uma tecnologia de edição genética conhecida como CRISPR. Para introduzir a terapia nas células de KJ, os médicos empregaram o mesmo tipo de tecnologia de mRNA que nos permitiu a produção das vacinas contra a Covid-19. Ele recebeu a primeira dose aos seis meses de idade. Um ano depois, KJ está andando, falando e se desenvolvendo muito bem em casa com sua família.
O surreal desta história é que a tecnologia para fazer algo a respeito já existe. A abordagem que ajudou KJ pode ser empregada em outras crianças graças aos avanços na ciência de mRNA e na edição genética CRISPR. E não é só isso. A tecnologia pode ser reprogramada para outras doenças. Para isso, basta inserir um pequeno trecho do código genético que vai sinalizar para a maquinaria molecular o local preciso da correção. Alterando-se o trecho do código genético empregado, é possível redirecionar a tecnologia para uma nova doença.
Mas convém calibrar expectativas. Coller observa em seu artigo que o caminho para a cura completa das doenças raras é árduo e longo. “Sabemos como encapsular o mRNA em minúsculas bolhas de gordura e levá-lo até o fígado, que era onde as células de KJ estavam falhando. Alcançar outros órgãos (o cérebro, o coração, os pulmões) continua sendo um desafio científico significativo”, afirma em seu artigo, destacando que para doenças causadas por uma genética complexa, há muito que se fazer ainda.
A edição genômica personalizada existe — mas o sistema regulatório não foi feito para ela.
O que falta é regulação
Coller acredita que o maior problema seja o fato de toda nossa infraestrutura regulatória e comercial ter sido construída para blockbusters, medicamentos que atendem a milhares de pacientes. Não foi projetada, argumenta ele, para intervenções individualizadas e de alto risco que corrigem defeitos específicos em pacientes idem.
Mas, a seu ver, a solução já existe. “Considere um cirurgião que realiza um reparo de válvula cardíaca. Ninguém pede a esse cirurgião que realize um ensaio clínico antes de operar o próximo paciente com uma anatomia ligeiramente diferente. A técnica é validada, a instituição é credenciada e cada procedimento é adaptado ao indivíduo”. Coller propõe que pensemos da mesma forma quando se trata de edição genética mRNA-CRISPR: concebê-la como cirurgia molecular, e não como um produto farmacêutico.
Mas Coller vê avanços nesse campo. “A FDA propôs recentemente uma nova estrutura que aceleraria a aprovação de tratamentos individualizados para doenças raras, permitindo que os reguladores avaliem essas terapias com base em evidências de sua eficácia, em vez de exigir os tradicionais ensaios clínicos em larga escala”. E destaca no artigo também iniciativas já em curso no âmbito hospitalar.
Barbas de molho porque existem ainda outros obstáculos, de caráter comercial. Nenhuma farmacêutica vai montar linha de produção para 12 pacientes. Quem financia a ponte entre a descoberta acadêmica e o serviço clínico repetitivo? Hoje, ninguém. Esse é um outro obstáculo tão importante quanto o regulatório.
No Brasil, mais impedimentos
Mas se transportássemos esta discussão para o Brasil, constataríamos a presença de um terceiro obstáculo: o da incorporação ao SUS. Mesmo que uma terapia avançada seja aprovada pela Anvisa, ela só entra no SUS depois de passar pela Conitec, que avalia o famigerado “custo-efetividade”. E terapias ultraindividualizadas, com população minúscula e custo altíssimo, tendem a ser reprovadas ou postergadas exatamente porque os modelos de avaliação econômica em saúde foram feitos para medicamentos de massa.
No Brasil, o problema tem uma camada a mais.
O artigo do NYT fala de um duplo bloqueio: regulatório e comercial. Aqui, esse bloqueio chega ao paciente com mais um andar: o da incorporação pública. Uma terapia pode ser validada cientificamente, aprovada pela Anvisa e ainda assim nunca alcançar um usuário do SUS.
A Anvisa resolveu parte do problema em 2020, com a RDC 338. Antes disso, o país levou cinco anos para definir as condições mínimas de registro dos produtos de terapia avançada: terapias celulares, gênicas, de engenharia tecidual. Hoje há oito produtos autorizados no mercado nacional. Nos EUA e na Europa, esse número é bem maior. O gerente responsável pela área na Anvisa avalia que o Brasil está “bem posicionado”. É uma avaliação generosa. E otimista, convenhamos
O problema mais grave não está no registro. Está depois dele.
Um produto aprovado pela Anvisa não entra automaticamente no SUS. Precisa passar pela Conitec, que avalia custo-efetividade das tecnologias em saúde usando critérios pensados para medicamentos convencionais: populações grandes, ensaios fase III, curvas de custo calculáveis. Terapias para doenças que afetam algumas centenas de pessoas no país (com custos na casa dos milhões de reais) não cabem nesse modelo. Não é que a Conitec tenha má vontade. É que o instrumento não foi feito para esse tipo de problema.
Quem formulou o impasse com mais clareza foi a secretária-executiva do CMED, órgão que define preços máximos de medicamentos no Brasil: “Nosso modelo de precificação foi estabelecido em 2004, em um cenário em que não tínhamos ainda medicamentos biológicos ou terapias gênicas. Haverá o registro, mas não vou conseguir precificar.” Sem precificação, não há incorporação. Sem incorporação, não há acesso.
A saúde suplementar também não oferece atalho. Em fevereiro de 2025, a ANS determinou que todos os produtos de terapia avançada registrados pela Anvisa precisam passar por ATS específica antes de entrar no rol dos planos , mesmo que já estejam no SUS. O Zolgensma custa cerca de R$ 9 milhões por paciente. Dois terços dos planos no país são de pequeno e médio porte. Não é difícil calcular o que acontece.
A Conitec discute criar critérios específicos para doenças ultrarraras. Há workshops, consultorias internacionais, documentos em elaboração. Mas não há definição. A norma de precificação de 2004 segue vigente. O modelo de ATS não mudou. E as terapias gênicas personalizadas continuam inacessíveis pelo sistema público, salvo por ordem judicial.
Quando o artigo do NYT diz que, se crianças ainda morrerem de condições que a ciência já sabe corrigir, a culpa não será da ciência, o argumento faz sentido nos dois hemisférios. No Brasil, porém, não se trata de falta de imaginação. Trata-se de reformar três sistemas ao mesmo tempo (registro, precificação e incorporação), cada um com sua burocracia, seus atores, seus interesses. Nenhuma inovação científica atravessa esse conjunto de barreiras sem que alguém, do lado de cá, decida que vale a pena derrubá-las.
O caso não deve ser lido como milagre isolado, mas como prova de conceito. A tecnologia está pronta. O que falta é imaginação institucional: regulatória, comercial e política.