COVID-19/ Vidas X Empregos: um falso dilema?

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No fim de março, o mundo testemunhou um debate no mínimo inusitado, que surgiu no rastro do início da pandemia, primeiramente nos EUA. Tratava-se de um debate bastante familiar aos doentes raros que lutam para conseguir acesso a medicamentos de alto custo: “o que deve vir primeiro? Vidas humanas ou economia?”. Por uma curiosa ironia, o debate sobre a custo-efetividade das vidas dos doentes raros transportou-se assim, como uma maldição perversa, para a sociedade a nível planetário. Convidamos Emmanoel Boff,  professor da Universidade Federal Fluminense, para destrinchar essa polêmica para você, leitor(a). O resultado você lê abaixo.

emmanoel boff

No debate sobre que tipo de política pública adotar para lidar com uma pandemia da gravidade da COVID-19, um primeiro dilema parecia inevitável graças à polarização da nossa sociedade: deve-se adotar uma política de isolamento social mais frouxa, para preservar empregos e renda? Ou uma política mais estrita, para preservar vidas?

Tão logo a discussão teve início, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) apontaram o falso dilema entre vidas e emprego: nas palavras de Kristalina Georgieva (FMI) e Tedros Adhanom (OMS), publicadas no Telegraph “este é um falso dilema _ ter o vírus sob controle é, quando muito, um pré-requisito para salvar meios de subsistência”.

Essa constatação de que vida e economia estão ligadas não é, em absoluto , nova: desde debates no início do século XIX , sabemos que o trabalho humano pode afastar temporariamente a escassez que constantemente ameaça a vida humana.

Já no século XX, a área da economia evolucionária e o desenvolvimento da sociobiologia apontam para o entrelaçamento da vida com o pensamento econômico _ ligação que vai até a abordagem influente do prêmio Nobel Gary Becker.

Desta forma, o que Georgieva e Adhanom nos lembram é dessa coprodução secular entre vida e economia que herdamos da modernidade europeia ocidental. Traduzindo, em termos mais simples, o argumento deles aponta na direção de que os custos de longo prazo envolvidos em uma política frouxa de isolamento social ultrapassarão em muito os benefícios de curto prazo de manter empregos.

O número astronômico de mortes (e o possível esgarçamento social daí advindo) danificariam a geração de empregos de longo prazo. Charada morta e dilema resolvido: salvar vidas agora com alguma perda de empregos no curto prazo mais que compensa as mortes que virão nos próximos meses, e que provavelmente desestabilizarão a economia por um período de mais de um ano.

Os custos de longo prazo envolvidos em uma política frouxa de isolamento social ultrapassarão, em muito, os benefícios de curto prazo de manter empregos.

Por que dizer então que há um lado enganoso nesse “falso dilema” que já foi resolvido? Porque a argumentação de ambos os lados se baseia em um mesmo pressuposto _ e um pressuposto enganoso quando se trata de saúde e da vida humana. Esse pressuposto é o de que a vida humana pode ser comparada com outras variáveis econômicas em termos monetários. Perceba: na argumentação que fecha um dos parágrafos anteriores, o isolamento estrito é defendido em termos que são em última análise mensuráveis em termos de emprego e renda de longo prazo. É um cálculo de custo-benefício que o embasa e justifica.

OK, mas o que haveria de duvidoso nessa comparação de vidas ou saúde humanas com uma quantia monetária? Ora, o simples fato de imaginarmos que tal comparação não seria problemática dá ideia da extensão que o pensamento de custo-benefício (ou custo-efetividade, como se diz na área da saúde) penetrou em esferas da vida social que há poucas décadas não se imaginava poder estudar com um instrumental econômico. Mais do que nunca, a ideia de que há um “imperialismo” da ciência econômica frente a todo aspecto social da vida humana parece se confirmar.

No entanto, essa comparação foi motivo de muita discussão antes de o cálculo custo-benefício balizar políticas públicas. Não é nosso objetivo fazer um detalhamento dessa discussão secular, mas dá pra apontar inicialmente dois problemas nessa imbricação entre vida e economia: um problema ético e outro político.

O problema ético sugere que a monetarização de tudo nas sociedades contemporâneas tende a corroer a moralidade e o caráter individual, de modo que até mesmo vidas humanas possam ser comparadas e eliminadas (ao menos em teoria), se seu custo de manutenção for maior que o benefício de estar vivo. Até que ponto nós perdemos valores morais (como o senso de justiça, honra e respeito) ao reduzir tudo ao dinheiro?

A outra questão é política: dado que o dinheiro é emitido pelos Estados nacionais, ele não necessariamente é escasso (o governo pode decidir emitir mais dinheiro em situações de calamidade como a atual). Como fazer o dinheiro funcionar para a promoção de um bem geral?

Essas são as questões que não são levantadas quando se comparam vidas e empregos na crise do COVID-19. Que a crise seja capaz de despertar do adormecimento de décadas essas questões tão importantes na área da saúde e da economia.

Emmanoel Boff é professor de História do Pensamento Econômico da Universidade Federal Fluminense (UFF). E sim! Ele é sobrinho do teólogo Leonardo Boff!

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